Olá, Debora. Como vai?
Você tocou em uma das maiores e mais complexas dores do gerenciamento de produtos moderno: o famoso dilema do Output (Entregar código/funcionalidades) vs. Outcome (Gerar resultado de negócio).
Muitas empresas caem na armadilha de focar o Roadmap apenas em uma lista de recursos a serem entregues ("Feature Factory"). O resultado é exatamente o que você descreveu: produtos inflados, custos de manutenção altíssimos e nenhum impacto real no ponteiro do negócio.
Para mudar esse cenário, os times de produto e estratégia utilizam frameworks específicos que conectam o esforço de engenharia com métricas financeiras e de comportamento. Vamos entender na prática como essa medição é feita.
1. O Framework OKR (Objectives and Key Results)
Quando a estratégia define que o objetivo é "Aumentar as vendas em 10%", o time de produto não cria uma meta solta. Eles quebram esse objetivo macro em resultados-chave (Key Results) operacionais e comportamentais.
A medição é feita estabelecendo uma relação de causa e efeito:
- Objetivo Geral da Empresa: Aumentar o faturamento da vertical digital em 10% neste trimestre.
- Métrica do Time de Produto (Outcome): Reduzir o abandono do carrinho de compras de 65% para 45%.
- Aposta do Roadmap (Output): Implementar o checkout em uma única página (One-Click Checkout).
Como os times medem isso na prática? Através de ferramentas de Product Analytics (como Amplitude, Mixpanel ou Google Analytics). Eles criam um Funil de Conversão. Se o novo checkout for ao ar e a taxa de abandono cair, o time de produto consegue provar matematicamente a porcentagem de receita extra que foi gerada especificamente por aquela melhoria no produto.
2. A Métrica Estrela do Norte (North Star Metric)
Para evitar que o produto fique recebendo melhorias infinitas que só aumentam o custo, grandes empresas utilizam uma única métrica central que mede o valor real que o produto entrega.
Se o produto entrega valor, o cliente permanece e gasta mais. Veja exemplos práticos de grandes marcas:
- Spotify: O objetivo deles não é apenas "vender assinaturas", a North Star Metric é o Tempo total de audição dos usuários. Se esse tempo aumenta, a retenção sobe e a receita acompanha.
- Airbnb: A métrica central é o Número de noites reservadas. Se eles constroem uma funcionalidade que não mexe nessa métrica, ela é considerada um desperdício.
3. Como os times decidem matar um recurso ou continuar investindo?
Para resolver o problema que você citou sobre produtos que continuam em produção dando prejuízo, os gerentes de produto utilizam uma matriz de avaliação de funcionalidades baseada em Adoção vs. Frequência.
Periodicamente, o time analisa todas as ferramentas do produto e as classifica em quatro quadrantes:
- Alta Adoção + Alta Frequência: São as funcionalidades principais. Devem receber melhorias contínuas.
- Alta Adoção + Baixa Frequência: Recursos usados por quase todo mundo, mas só de vez em quando (ex: recuperar senha ou emitir nota fiscal). Devem ser mantidos estáveis.
- Baixa Adoção + Alta Frequência: Recursos usados por um grupo muito nichado, mas de forma intensa (ex: relatórios avançados para administradores). Podem ser monetizados como um plano Premium.
- Baixa Adoção + Baixa Frequência: É aqui que mora o perigo. São recursos que quase ninguém usa e quem usa, entra raramente. Esses recursos devem ser descontinuados (desligados) para cortar o custo de manutenção.
Outros Exemplos Práticos e Efetivos de Medição:
- Cenário de Atendimento: Uma empresa quer reduzir custos operacionais. O time de produto implementa uma IA de autoatendimento. A medição é o Ticket Deflection Rate (porcentagem de clientes que resolveram o problema sozinhos sem precisar falar com um humano). Se a IA resolveu 40% dos casos, multiplica-se esse volume pelo custo médio de uma ligação humana, encontrando o ROI exato do produto.
- Cenário de Retenção (Churn): Se um produto de assinatura (SaaS) está perdendo clientes, o time foca na métrica de Time-to-Value (TTV), que mede quantos minutos o cliente demora para realizar a primeira ação de sucesso no app após se cadastrar. Reduzir o TTV aumenta a retenção, impactando diretamente o faturamento.
Em resumo, Debora, para que a medição seja efetiva, a liderança precisa parar de cobrar "quantas telas o time entregou" e passar a cobrar "qual indicador de comportamento do usuário o time conseguiu transformar".
O que você achou dessa abordagem baseada em comportamento do usuário para justificar o investimento? Na sua realidade atual, os times têm facilidade para acessar esses dados de uso do produto?