Diário de uma profissional das Ciências Humanas
Tenho dedicado parte significativa dos últimos meses ao estudo da Inteligência Artificial. O percurso começou como uma necessidade profissional, mas, aos poucos, transformou-se em uma experiência de aprendizagem muito mais profunda do que eu imaginava.
Recentemente, iniciei a construção de uma apostila destinada à formação de professores para o uso do ChatGPT. A ideia parecia relativamente simples: estudar os conteúdos, organizar os conceitos, selecionar exemplos e produzir os capítulos.
No entanto, à medida que avançava, comecei a perceber algo curioso.
Quanto mais eu aprendia sobre Engenharia de Prompt, mais refletia sobre aprendizagem. Quanto mais estudava a construção de instruções para a IA, mais pensava sobre mediação pedagógica. Quanto mais analisava a forma como o ChatGPT processa informações, mais me questionava sobre a maneira como nós, humanos, construímos conhecimento.
Em determinado momento, percebi que estava tentando fazer muitas coisas simultaneamente.
Aprender os conceitos.
Refletir sobre suas implicações.
Decidir o que deveria entrar na apostila.
Organizar capítulos.
Criar atividades.
Pensar em aplicações para professores, coordenadores e gestores.
Era como se a produção do material estivesse acontecendo ao mesmo tempo em que eu própria ainda estava construindo os significados daquele percurso.
Foi então que uma das ideias mais simples trabalhadas durante o curso começou a fazer sentido para além da tecnologia.
Não pule etapas.
Inicialmente, eu havia compreendido essa orientação como uma estratégia para produzir prompts melhores. Hoje, começo a vê-la como um princípio de aprendizagem.
Antes de organizar um conhecimento, é preciso compreendê-lo.
Antes de ensinar um conceito, é preciso construir significados sobre ele.
Antes de produzir um material, é preciso permitir que as ideias encontrem suas conexões.
Talvez por isso tenhamos decidido criar dois momentos distintos para a construção da apostila.
O primeiro é o momento da mediação. Nele, o objetivo não é produzir capítulos. É aprender. Ler. Fazer perguntas. Estabelecer relações. Identificar conceitos. Construir entendimento.
Somente depois vem o momento da produção propriamente dita, quando as ideias já foram suficientemente elaboradas para serem transformadas em texto, atividades e experiências de aprendizagem.
Tenho achado interessante perceber que, ao estudar Inteligência Artificial, estou sendo levada de volta a questões que acompanham minha trajetória há muitos anos: como aprendemos, como construímos significados e como transformamos informação em conhecimento.
Talvez uma das contribuições mais interessantes da Inteligência Artificial para a Educação não esteja apenas naquilo que ela é capaz de produzir.
Talvez esteja na possibilidade de tornar mais visíveis os caminhos que percorremos para aprender.
E isso me leva a pensar que, mesmo em uma época marcada pela velocidade e pela automação, algumas coisas continuam exigindo tempo, reflexão e elaboração.
A aprendizagem é uma delas.