Recentemente, um aluno atípico, com altas habilidades em diferentes áreas, evidenciando elevado potencial cognitivo e criativo, nos procurou após se sentir desconfortável durante uma atividade em sala. Inicialmente, afirmou que estava ali para fazer uma “denúncia”, relacionada à fala de um colega sobre o seu trabalho.
O contexto envolvia um colega que, assim como ele, também possui grande habilidade para o desenho. Durante a atividade, esse colega afirmou que faria um mangá “muito melhor” que o dele. Essa fala, ainda que comum em contextos de comparação, foi recebida pelo aluno como desqualificação, gerando frustração, desmotivação e quase desistência da própria produção.
O atendimento poderia ter diso mais um “caso resolvido” com uma orientação simples. Mas não foi.
A intervenção começou pelo diálogo. O aluno foi acolhido, escutado e orientado, e toda a conversa foi registrada, para gerar dados que pudessem ser analisados mais minuciosamente depois, gerando intervenções ainda mais assertivas. Esse cuidado não é apenas operacional — é pedagógico. Foi a partir desse registro que identificamos o núcleo do problema: a dificuldade em lidar com comparação, frustração e interpretações emocionais distorcidas.
Durante a mentoria, trabalhamos a relação entre pensamento, emoção e ação, por meio de estratégias de autorregulação e do uso de metáforas pedagógicas. Entre elas, a “raia de natação”, que orienta o foco no próprio percurso, e a fábula dos “dois lobos”, que habitam nossa mente e são alimentados conforme nossas escolhas emocionais, evidenciando a responsabilidade sobre quais emoções decidimos fortalecer.
Mais do que orientar, ajudamos o aluno a compreender e gerir seus próprios processos internos. E isso muda a natureza da intervenção.
Ao final, perguntei ao estudante se ele gostaria de receber um relatório com o registro da nossa conversa, como forma de continuar refletindo sobre os pontos abordados ao longo da semana. Ele disse que sim.
A partir disso, utilizamos um prompt institucional que estruturamos e que organiza a gravação da mentoria em quatro entregas integradas: a ata técnica, a devolutiva formativa ao aluno, a comunicação com a família e o registro para acompanhamento em sistema.
Ele parte da atuação de uma Coordenadora Pedagógica, Doutora em Educação, especialista em desenvolvimento socioemocional, gestão de comportamento e mentoria educacional, e orienta a produção de quatro entregas integradas:
I- Ata de Mentoria Pedagógica - Registro institucional completo, obtido a partir da conversa gravada, com identificação, objetivo, contexto, intervenção realizada, estratégias utilizadas, encaminhamentos, combinados, agendamento e síntese técnica.
II- Relatório de Mentoria para o Aluno, que se constitui por um documento em linguagem acessível, formativa e acolhedora, pensado para ajudar o estudante a compreender a situação vivida, organizar seus pensamentos, reconhecer seus aprendizados, aplicar estratégias práticas e fortalecer autonomia, autoestima e autorregulação;
III- Resumo para a Família ser enviado pelo canal de comunicação da escola, que se constrói como uma comunicação breve, institucional e estratégica, que apresenta a mentoria como um projeto personalizado e diferenciado da escola, valorizando o protagonismo do aluno e oferecendo segurança pedagógica à família.
IV- Resumo Sintético para o sistema de registro da escola, o qual se constitui por um registro técnico, objetivo e breve, voltado ao sistema institucional, contendo tipo de atendimento, situação apresentada, foco da intervenção, estratégias utilizadas e encaminhamento.
No dia seguinte, o aluno retornou à coordenação para receber e conversar sobre o material que sintetizava a mentoria (o material pode ser lido pelo seguinte link: https://docs.google.com/document/d/1YVnTuSwOe7uNpoVASXYkYIBCCVHjDHPwP2ZzYHHPxZM/edit?usp=sharing) realizou a leitura em um momento de maior estabilidade emocional e, durante esse processo, algo significativo aconteceu.
Ao chegar à frase “Faça o seu melhor. O resultado vem depois.”, o aluno se chorou e disse: "Eu entendi". Isso é evidência de aprendizagem. Revela que houve conexão, que o conteúdo ultrapassou o plano racional e foi internalizado.
Esse é o ponto central: quando o aluno se reconhece no processo, a aprendizagem deixa de ser externa e passa a ser construída de dentro para fora.
É por isso que entendemos esse trabalho como governança pedagógica aplicada ao desenvolvimento humano. Porque formar estudantes hoje não é apenas garantir a aprendizagem conceitual ou procedimental, mas, é sobretudo, formar sujeitos que saibam lidar com frustração, sustentar processos, fazer escolhas conscientes e seguir em frente diante de desafios.